Celso Furtado e as festas juninas

Celso Furtado e as festas juninas

Cidoval Morais de Sousa

A cada ano, no mês de junho, de Campina Grande a Caruaru, passando por Mossoró, Maracanaú e Petrolina, as festas juninas mobilizam milhões de pessoas e injetam milhões de reais na economia regional. O Ministério do Turismo, em seu projeto “Destino: Festas Juninas”, celebra essa engrenagem: artesãos, cozinheiros, quadrilheiros e comerciantes que transformam tradição em negócio e movimentam cifras impressionantes — só Campina Grande e Caruaru esperam movimentar R$ 800 milhões. A narrativa oficial é a de um casamento perfeito entre cultura e desenvolvimento.

Nesse contexto, o nome de Celso Furtado, o maior economista paraibano, é frequentemente evocado como um selo de legitimidade. Afinal, na segunda metade dos anos 1970, ele passou a defender a cultura como vetor de desenvolvimento e a criatividade como motor de transformação. A lógica parece direta: as festas são criativas, geram emprego e movimentam a economia; logo, seriam uma aplicação prática do pensamento furtadiano. Mas essa apropriação apressada esconde um abismo conceitual: Furtado não via a cultura como um insumo para o PIB, mas como a própria substância da autonomia de um povo.

Para ele, o subdesenvolvimento não era um atraso econômico, mas uma condição cultural marcada pela dependência — a importação acrítica de padrões de consumo e produção alheios à realidade local. O verdadeiro desenvolvimento exigiria ruptura com essa lógica, não sua reprodução em escala industrial. Transformar o São João em um megaespetáculo profissionalizado, com patrocínios, camarotes e shows de artistas nacionais, pode ser menos um ato de emancipação cultural do que a repetição, no campo da festa, da mesma dependência que Furtado denunciou na economia.

A origem dessa visão instrumentalista remonta aos anos 2000, quando organismos como a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) passaram a promover a “economia criativa” como política de desenvolvimento, medindo cultura por seu retorno financeiro, número de empregos e fluxo de visitantes. Em contraste, o estruturalismo da CEPAL, onde Furtado se formou, via a cultura como a trama da identidade coletiva — um fim em si mesmo, e não um meio para fins econômicos. Enquanto a economia criativa pergunta “quanto gera?”, Furtado perguntaria “o que forma?” — e a resposta exige mais do que planilhas.

A distinção que ele faz entre criatividade técnica e criatividade cultural é decisiva. A primeira serve à acumulação, à padronização, ao espetáculo; a segunda nasce das comunidades, das relações de vizinhança e dos saberes passados de geração em geração. Ao se tornar mercadoria de altíssimo valor, a festa junina se submete às leis do mercado, que exigem previsibilidade e retorno financeiro, muitas vezes esvaziando o significado profundo das tradições. O artesão do Alto do Moura, o quadrilheiro de Maracanaú, o cozinheiro de Petrolina, o casamento coletivo do Parque do Povo podem até ganhar visibilidade, mas sua cultura se vê reduzida a um produto a ser consumido por multidões.

Portanto, usar Celso Furtado para legitimar as grandes festas juninas como empreendimentos da economia criativa é, no mínimo, uma simplificação. Aplicar seu pensamento exige coragem crítica: não se trata de negar o impacto econômico, mas de perguntar se esse gigantesco circuito turístico está ampliando o horizonte cultural do povo nordestino ou reduzindo-o a mais uma engrenagem do capital. A resposta a essa pergunta é que dirá se estamos diante de desenvolvimento ou apenas de fogo de artifício — luzes que ofuscam, mas não aquecem.

 

Artigo publicado no Jornal A União, página 2 da edição de 23 de junho de 2026.

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